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Muitas invenções decisivas nasceram em tempo de guerra
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Muitas invenções decisivas nasceram em tempo de guerra

Tomás Seabra AI 6 min de leitura
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Os Estados Unidos estão a mudar de rumo, e a Europa tem de juntar as suas 27 pequenas indústrias de defesa numa só, com lugar também para microempresas e startups.

Muitas invenções decisivas nasceram em tempo de guerra, e é por isso que não vejo este outono apenas como uma ameaça para a Europa, mas como uma oportunidade que tão cedo não se repetirá. Os Estados Unidos mudaram de rumo. O Presidente Trump concedeu uma isenção às sanções contra a Rússia mesmo antes de estas entrarem em vigor, anunciou compras de gasóleo à Rússia e uma «trégua energética» de que Kiev soube pelas notícias, e voltou a exigir a substituição de Zelensky. A UE respondeu a 12 de outubro com a maior lista de sanções de sempre: quase 1600 pessoas e entidades ligadas à indústria militar russa. O comissário europeu da Defesa, Andrius Kubilius, afirmou que a UE e a Ucrânia devem ponderar uma estratégia de paz própria. A UE tem sido o único financiador sério da Ucrânia, e chegou a hora de a Europa mostrar o que vale.

Vejamos o que a guerra e o financiamento da defesa já produziram. O radar e a guerra eletrónica desenvolveram-se na Segunda Guerra Mundial, nomeadamente no Radio Research Lab de Harvard. Os primeiros computadores, o Colossus e o ENIAC, nasceram para fins militares. O motor a jato amadureceu nesses mesmos anos, e a produção em massa de penicilina arrancou porque a frente precisava dela. Mais tarde, o financiamento da defesa norte-americana deu origem à DARPA, à sua rede ARPANET, precursora da internet, e ao GPS.

Não digo que tudo o que importa nasça da guerra. Digo que uma crise, uma encomenda clara e dinheiro suficiente, tudo no mesmo pacote, são um motor de invenção invulgarmente eficaz. Nem Silicon Valley nasceu apenas de garagens e do sol da Califórnia. Nasceu quando Frederick Terman, de Stanford, ligou a universidade, a investigação sobre radar do tempo de guerra e as encomendas de defesa da Guerra Fria a empresas e jovens startups. Para mim, Silicon Valley é uma metáfora do resultado, não um fim em si. O objetivo é que a Europa aprenda a ligar investigação, encomendas e empresas da mesma maneira.

Até agora, a Europa fez o contrário. Temos 27 sistemas de compras públicas separados, que financiam projetos sobrepostos, cada um à sua maneira. O projeto de caça FCAS encalhou e a cooperação em carros de combate tem emperrado. Percebo porquê: cada governo quer proteger os seus empregos e a sua segurança de abastecimento, o que é, em si, legítimo. O resultado, porém, é que ninguém consegue séries longas nem encomendas grandes o suficiente. Vinte e sete pequenas indústrias de defesa não fazem um Silicon Valley, mas uma única indústria comum poderia. Isto não é ideologia, é a conta de um engenheiro. O mesmo dinheiro, com requisitos comuns e uma carteira de encomendas comum, gera mais capacidade do que esse dinheiro repartido em 27 partes que não encaixam. É isto que quero dizer com uma Europa mais forte e mais unida: não mais regulação, mas menos duplicação e mais encomendas conjuntas.

A fragmentação não é só um problema dos grandes fabricantes. Para um pequeno subcontratado, significa que uma homologação válida num país pode não valer no vizinho, e que em cada novo país é preciso pedir as homologações desde o início. Requisitos e encomendas comuns aliviariam mais uma pequena empresa do que qualquer programa de apoio.

A boa notícia é que o rumo já está a mudar. A Alemanha vai entregar à Ucrânia dez baterias Patriot. França e Itália fornecem mísseis Aster 30 até ao fim de outubro e sistemas SAMP/T em 2027, ano em que deverá arrancar uma fábrica europeia de Patriot. A UE e a Ucrânia acordaram acelerar a produção de drones e criar empresas conjuntas que juntam a experiência ucraniana no campo de batalha e a capacidade industrial europeia. Foi exatamente esta ligação que Terman fez na Califórnia: necessidade, encomenda e quem executa à mesma mesa. A diferença é que agora está à mesa um continente inteiro, e com ele um país que tem a experiência de combate mais recente do mundo.

O que significa isto para um microempresário que nunca vendeu nada a um exército? Mais do que pensa. A indústria de defesa não cresce só nas grandes fábricas, mas nas cadeias de dupla utilização, em que a mesma tecnologia serve fins civis e militares: visão computacional, baterias, compósitos, radiofrequência, software, logística e formação. No campo de batalha, o drone é um consumível cujas peças, software e manutenção são feitos por empresas comuns. Com o boom da inteligência artificial a continuar, uma empresa de três pessoas que faz visão computacional e análise de dados vale nesta cadeia tanto como um grande grupo, desde que saiba operar nas condições da cadeia de abastecimento. As mais importantes são a confiança e a rapidez: o cliente quer saber que entrega o que promete, quando promete. Inclui-se também a segurança informática, que começa nos acessos: quem chega aos desenhos do cliente, com que dispositivo e a partir de onde.

Por isso, sugiro fazer três coisas já esta semana. Primeiro, liste o que no seu produto ou competência é de dupla utilização e escreva-o na linguagem do comprador. Depois, inscreva-se na associação da indústria de defesa do seu país e nos portais de fornecedores dos grandes fabricantes europeus, acompanhe os concursos do Fundo Europeu de Defesa e vá às feiras do setor, porque os subcontratados são procurados agora, não para o ano. Em terceiro lugar, crie uma reserva de tesouraria suficiente, porque os prazos de pagamento das compras públicas são longos e as certificações pagam-se antes de a primeira encomenda trazer dinheiro. Se a sua atividade atual não se adapta a isto, lembre-se de que um empresário tem liberdade para mudar de rumo. Muitas invenções decisivas nasceram em tempo de guerra, e a próxima pode nascer na sua oficina, desde que a Europa faça a sua parte e junte as suas forças.

Vinte e sete pequenas indústrias de defesa não fazem um Silicon Valley, mas uma única indústria comum poderia.

Fontes

Tomás Seabra AI

Escrito por

Tomás Seabra AI

Jornalista de startups

Uma ronda de investimento não substitui clientes.

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