Empreendedorismo é dos temas mais baratos de produzir em vídeo: basta uma história pessoal, uma câmara e a disciplina de publicar. Por isso a categoria enche depressa, e por isso o trabalho de separar informação de captação de clientes fica quase sempre do lado de quem vê.
Para uma empresa de zero a quatro pessoas, a pergunta útil raramente é como escalar para cem trabalhadores. É o que muda no mês seguinte no crédito, nos apoios públicos, no custo do trabalho e na procura do setor. Isso obtém-se. Já a resposta sobre o modelo de negócio ideal é, em Portugal, um negócio em si — com curso, programa e link de afiliado incluídos.
Nesta categoria o nosso registo tem 6 canais em português. Recomendamos três. Não são quatro porque o maior canal termina no seu próprio programa pago, o segundo é a montra de um intermediário de crédito e um terceiro não publica um episódio longo desde 2021.
Como escolhemos
Ouve-se do princípio ao fim. Cada canal recomendado tem no nosso registo uma gravação inteira e recente. Um clipe de três minutos pode ser excelente e continua a não dizer o que virá no mês seguinte.
Interesse declarado. Patrocínio a meio de um episódio é uma coisa. Um vídeo cuja conclusão é «aprende a fazer isto comigo, o link está em baixo» é outra: aí o conteúdo é a isca. Traçámos a linha nesse ponto e dizemo-lo em voz alta.
O tema chega à contabilidade. Interessa-nos o que se decide entre segunda e sexta: apoios abertos, custo do trabalho, procura do setor. O que só existe no palco de uma conferência fica no palco.
Quem fala e a partir de onde. Um economista, um jornalista de inovação e um empresário não têm o mesmo ângulo, e nenhum é neutro. Isso não é defeito, desde que se saiba antes de passar os números para a própria folha de cálculo.
Bitalk – Negócios à Portuguesa – 84.400 subscritores, 1.819 vídeos
É o maior arquivo de conversas sobre negócios feito em português de Portugal: o Tocha e o José Serra recebem convidados no podcast e juntam especialistas nas roundtables setoriais. Com 1.819 vídeos, seguir o feed não faz sentido; procurar pelo setor ou pelo convidado faz.
O episódio longo mais recente, o #292 com Filipa Dias, dura quase duas horas e não é sobre negócios: é sobre demência e sobre o país não estar preparado para o envelhecimento da população. Vale a pena precisamente por isso. Numa empresa de duas pessoas, um cuidador informal não é um caso de recursos humanos — é faturação que pára durante meses. E o envelhecimento é, ao mesmo tempo, o maior mercado em crescimento para serviços de proximidade em Portugal. Poucos episódios de gestão dizem tanto sobre os próximos dez anos.
Para quem: quem quer ouvir empresários portugueses a explicar decisões concretas, e aceita escolher o episódio pelo tema e não pela ordem de publicação.
Ver o episódio na Innohub TV 113 min
The Next Big Idea – 40.100 subscritores, 1.178 vídeos
Começou em 2012 como programa na SIC Notícias, quando as primeiras startups portuguesas ainda precisavam de ser apresentadas ao país. Hoje é um projeto multiplataforma sobre inovação e tecnologia, e é o mais próximo de cobertura jornalística que esta categoria tem em português: há perguntas de seguimento, e nem toda a resposta fica por elogio.
O episódio longo mais recente, de 55 minutos, faz o balanço do Plano de Recuperação e Resiliência com Pedro Dominguinhos e Miguel Pereira Gomes: mais de 20 mil milhões de euros, 21 componentes, quase cinco anos depois e já com margem para perguntar o que mudou mesmo na economia. Para uma microempresa isto não é política abstrata. É a explicação de por que motivo certos setores foram capitalizados e o seu não foi, e de como os avisos, os consórcios e as decisões locais determinam quem chega ao dinheiro. Quem nunca se candidatou a nada percebe aqui o mecanismo antes do próximo ciclo de fundos.
Para quem: quem já se candidatou a apoios públicos e ficou de fora, ou quem tenciona candidatar-se e ainda não sabe quem decide.
Ver o episódio na Innohub TV 55 min
45 Graus – 6.420 subscritores, 291 vídeos
O canal mais pequeno da lista e o menos «empreendedor» no sentido habitual. José Maria Pimentel, economista de formação, conduz entrevistas longas com investigadores, e o projeto é financiado por mecenas. Essa independência vê-se: não há curso no fim nem produto na descrição — e também não há concessões ao ouvinte com pressa.
Na segunda parte da conversa com Pedro Carneiro, professor de Economia no University College London, discute-se durante 47 minutos se os professores devem ser avaliados pelos resultados dos alunos. À primeira vista está longe de uma empresa de uma pessoa. Está a uma década de distância: são estas decisões que determinam quem se candidata a um emprego seu daqui a dez anos. E, no imediato, é um bom exercício de leitura de evidência: mostra como se testa uma afirmação de política pública em vez de a discutir por intuição.
Para quem: quem prefere um argumento verificável a uma opinião bem entoada, e tem 45 minutos seguidos para lhe dar.
Ver o episódio na Innohub TV 47 min
Os três que não estão aqui
João Zoio é, com 143.000 subscritores, o maior canal desta categoria no nosso registo, e o vídeo mais recente conta uma operação concreta: comprou uma ruína em Lisboa por 105.000 euros, remodelou, vendeu e mostra as contas. O problema não é a qualidade — é a posição. A descrição abre com o programa pago do próprio autor e com o intermediário de crédito que ele recomenda por link encurtado. Quando a conclusão é «aprende a fazer isto comigo», o vídeo é a primeira etapa de uma venda, por muito bem feito que esteja. Acresce que o tema é investimento imobiliário, não gerir uma empresa.
Doutor Finanças fica de fora por dois motivos independentes. O vídeo mais recente que temos registado tem três minutos e trata da partilha de bens num divórcio: é pouco para julgar um canal com 1.002 vídeos. E o canal é a face pública de um intermediário de crédito registado no Banco de Portugal com o número 0000420 — transparente e legal, mas quem vive de crédito não é a fonte com que se decide se vale a pena pedir crédito.
Bárbara Barroso tem 16.700 subscritores e credibilidade em literacia financeira, mas o episódio longo mais recente no nosso registo é de janeiro de 2021 e termina num curso. Recomendar um canal parado há cinco anos seria recomendar um arquivo e chamar-lhe fonte.
O padrão vale mais do que cada caso: metade desta categoria é finanças pessoais com etiqueta de empreendedorismo, e a parte mais monetizada é também a mais visível. Seis canais é pouco para um país com mais de um milhão de empresas, e a escassez está na oferta.
Três velocidades diferentes
Estes três não andam à mesma velocidade. O Bitalk usa-se pela pesquisa, quando há um setor ou uma decisão em cima da mesa. O The Next Big Idea vale quando estão abertos apoios. O 45 Graus é o lento: um episódio de cada vez, sem obrigação de acompanhar.
E deixe-se medir. Daqui a um mês, conte duas coisas: quantas horas ouviu e quantas decisões mudou por causa disso — um preço, um fornecedor, uma candidatura, uma contratação. Se forem seis horas e zero decisões, o que teve foi companhia — e a companhia com voz de empresário engana melhor do que qualquer outra, porque soa a trabalho.
Innohub TV
Vê este conteúdo também na Innohub TV
Selecionámos clipes da Innohub TV que continuam o mesmo tema.



